Após chamar atenção sobre a necessidade de aprender outra língua visando uma melhor interação com o mundo, aproveito a oportunidade para falar de um tema relacionado, uma determinada característica atual do mercado de trabalho. As nossas empresas exigem muito em comparação às atribuições à serem executadas nas funções ofertadas. Essa afirmação pode ser facilmente comprovada através de uma breve leitura das vagas de emprego oferecidas e suas exigências.
Como amante do universo das organizações posso afirmar, infelizmente a idéia que permeia o pensamento da maioria dos gerentes e donos de empresas é “quanto mais qualificado o funcionário for, melhor para o empregador”. Avaliando a máxima não vejo problema em pensar assim, as questões são evocadas pelas ações equivocadamente justificadas por esse pensamento e suas variações. Partindo desse princípio, os empresários poderiam investir na formação de seus funcionários visando às tarefas, mas fazer isso ainda é visto como mais difícil e custoso quando comparado a contratação de um funcionário “pronto”. Tenho consciência que existem empresários optando pelo investimento citado acima, porém ainda são minorias.
A meu ver, um processo seletivo terá maior probabilidade de obter sucesso se o empregador e sua equipe de Recursos Humanos se preocuparem com as características pessoais mais adequadas a vaga, associadas a um perfil de formação básica para executar a função. Quando digo básica, quero dizer mínima necessária mesmo. Por exemplo, para uma vaga na área de Recursos Humanos, é desejável formação superior em Psicologia e Administração. Cursos adicionais sobre utilização de programas específicos de auxílio à gestão e avaliações psicológicas são cursos rápidos (algumas semanas) e poderiam ser um investimento realizado pelo empregador em parceria com o funcionário. Já as características pessoais mais adequadas, dependem do perfil da empresa. Logicamente essas sugestões não se aplicam a todos os casos, existem as exceções como contratações de urgência, onde não há tempo para aguardar a formação. Essas sugestões se aplicam mais facilmente as contratações periodicamente planejadas, expansões de quadro de funcionários, estabelecimento de filais etc.
Antes de citar outro problema causado pelo aumento da exigência, relembro o pensamento apresentado linhas acima: “quanto mais qualificado o funcionário for, melhor para o empregador”. Existem diversos entendimentos a partir da afirmação e um deles reflete na exigência de atributos e habilidades desnecessários na execução da função. Por exemplo, uma língua estrangeira para uma recepcionista de uma clínica mediana que nunca recebeu um estrangeiro e nem vê essa público como cliente em potencial, só pelo fato de não destratá-lo. Ou ainda a mesma clínica exigindo conhecimento do pacote Office (Word, Excel, PowerPoint e Internet) quando utiliza um software próprio e não tem esse pacote como base, ou seja, é completamente indiferente o conhecimento exigido. Não sabem a maioria dos empregadores, e se sabem não demonstram ter tal conhecimento, que o fato de ter a habilidade exigida pelo processo seletivo e não utilizá-la na execução de suas tarefas, interfere diretamente na motivação do funcionário.
Enfim, esse paradigma só será mudado quando os responsáveis pela direção das empresas se derem conta do nosso momento econômico e social. Esse entendimento será fundamentado no fato de nem todos os bons profissionais têm acesso às oportunidades de formação continuada, sem a empresa abrir mão de uma formação técnica básica, o que não traria prejuízo a ninguém. Na verdade, traria lucro para os dois lados envolvidos, pois se os empresários investirem na formação dos seus funcionários, terão a mão-de-obra qualificada especificamente para as funções ocupadas ou futuras e os funcionários economizaram uma boa quantia em reais realizando cursos úteis para esta mesma vagas.
Enquanto isso não ocorre, só nos cabe, como candidatos, pensar e debater o assunto, também analisado nos centros formadores de profissionais para a área de Recursos Humanos e Gestão. Podemos aguardar as desejadas mudanças. Elas virão.
